Quando José Carlos da Conceição, 26 anos, deixou a cidade de Lauro de Freitas, na Bahia, há um ano, para vir ao Recife, ele não imaginava que passaria por dificuldades que o fariam tentar contra a própria vida. Em uma manhã de junho, José Carlos subiu em uma torre de telefonia e ameaçou pular. A tentativa de suicídio mudou a rotina na Avenida Guararapes, em Jaboatão dos Guararapes. Moradores e passantes disseram que José Carlos subiu às 8h e então anunciou suas intenções. Polícia e bombeiros foram acionados. Foi preciso mais de duas horas de conversa, com a ajuda de um pastor evangélico, para convencer José Carlos a descer.
Como acontece em qualquer "evento" de meio de rua, curiosos interromperam afazeres para acompanhar o drama, se acotovelando para chegar o mais perto possível do "olho do furacão". A situação-limite se explica pelos descaminhos percorridos por José Carlos.
Em um ano, o rapaz baiano que veio a Pernambuco procurar por trabalho, foi assaltado, ficou sem dinheiro, sem documentos, passou fome, levou facada, fez cirurgia, dormiu na rua, virou pedinte. Os percalços o levaram ao desespero. Sem ter como contactar a família, já sem esperança de voltar à sua cidade, José Carlos decidiu pelo suicídio.
À polícia e ao pastor José Alencar Lopes, José Carlos relatou sua história. "Aconteceu com ele, o que acontece com muitos jovens: não consegue trabalho, nem comida, e acaba se envolvendo com bebida e confusões. Não aparece quem lhe dê a mão, apenas que lhe mostre o mal. Ele estava sem esperança, faminto há vários dias", disse o pastor. Segundo o religioso, o rapaz contou que há alguns dias se envolveu em briga em um bar, onde levou a facada.
José Carlos passou por cirurgia, em um hospital público do Recife.Ainda carregava na barriga a cicatriz recente. Depois de receber alta, ficou vagando pela cidade. Acabou chegando ao Terminal Integrado de
Passageiros (TIP), a rodoviária, lugar de partidas e chegadas. Aos viajantes, pedia, em vão, ajuda para voltar à sua cidade. Depois de uma semana, foi expulso. "Ninguém quer por perto uma pessoa pobre e fedendo, não é?", disse o pastor.
Enquanto José Carlos saía do local para onde foi dar cabo de sua vida, já depois de descer da torre - somente após a promessa de que teria ajuda para voltar para casa - curiosos gritavam contra ele. "É um marginal. Tem que ser preso", "Ele precisa de uma surra", "O que ele quer é roubar", dizia quem assistia ao rapaz sair. Cercado por pessoas, ele precisou ser escoltado por policiais para chegar à viatura.
Transtornado, com o olhar fixo, ele repetia o tempo inteiro para PMs e bombeiros: "Não quero ir para hospital. Quero ir para casa. Vocês vão me ajudar? Preciso ir para casa". Ele estava descalço e carregava apenas um saco plástico com panos velhos. Tinha a aparência de quem havia se perdido há muito, em todos os sentidos. Unhas, cabelos e barba enormes. José Carlos foi algemado, colocado em viatura e levado para a 6ª Seccional da Polícia Civil.
Depois de verificar que José Carlos não tinha passagem pela polícia, os PMs o liberaram. Sem ter onde ficar, seria levado ao hospital psiquiátrico Ulysses Pernambucano, a popular Tamarineira, para onde já havia ido por três vezes. "Para lá eu não quero ir, não. Para o Ulysses não", repetia o rapaz. E pela segunda vez, a ajuda do pastor foi essencial para José Carlos.
"Checamos todas as informações que ele nos deu sobre sua família e estava tudo certo. Resolvi ajudá-lo", conta José Alencar. Foi registrado um Boletim de Ocorrência para justificar a ausência de documentos do rapaz. E depois de oferecer abrigo, banho e roupas a José Carlos, o pastor o levou para a rodoviária onde comprou para ele a passagem para a Bahia. "Depois da barba feita, cabelo cortado, roupas trocadas e banho tomado, ele ficou até bonito, o rapaz". José Carlos voltou para casa no ônibus das 18h45. "Acredito que agora ele terá uma nova chance de ter uma vida digna", concluiu o pastor José Alencar.
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Matéria não-publicada. - Jun '09