21 de novembro de 2009

Ah! O verão...

"Lá vem chegando um verão...
É um pintor passageiro colorindo o mundo inteiro
Derramando seus azuis lá vem chegando o verão..."


Essa estação louca que mexe com a gente. Ainda mais quem acorda todos os dias e tem o privilégio de olhar pra um céu tão azul e sentir um sol tão gostoso quanto o daqui. O verão dá aquela preguicite, não de indisposição, mas de disposição para fazer outras coisas que não trabalhar, estudar, ou qualquer coisa que nos faça passar o tempo entre paredes, sem nem perceber que horas são.

O humor muda no verão. As pessoas sorriem mais, ficam mais eufóricas, falam e se movem mais rápido. Assim eu percebo, pelo menos. Mas talvez seja meu olhar de veraneio sobre tudo. Ah! também pensam menos. Não sei se é o calor, mas o verão é a estação dos impulsos. Impulso de sair, de beber, de se divertir, de ir à praia, de não pensar, de paquerar. Paquera, inclusive, é uma das atividades borbulhantes no verão. Todo mundo se lembra, ao menos, de um amor de verão que já teve na vida.

O verão é a estação das delícias. Tem coisa mais gostosa que uma cerveja geladíssima no calor do verão? Ou pra quem não bebe, aquela coca-cola de garrafa recém-saída do freezer? A brisa e o barulhinho do mar, então, nem se fala... E os sorvetes e picolés?! Pra não falar dos beijos. Os beijos de verão, meus caros, são um perigo. Parece que ficam mais molhados, mais doces ou mais salgados, aí depende do gosto do beijador.

Enfim... O verão é a estação dos sentidos. Do tato, do paladar, do olfato... E quem quiser que diga o contrário. Mas o meu brinde é pra ele. Ao verão, caros telespectadores. Ao verão.

*Republicando, porque merece!

19 de novembro de 2009

válvula de escape. ou exorcismo.

Com medo que suas falas fizessem outros pensarem que era raivosa, se impôs filtros.

Mas desejou muitas vezes que alguém lhe desse um tapa na cara sempre que pensava em deixar de dizer o que realmente estava sentindo.

Um dia, com todas as raivas represadas, espancou o primeiro que lhe deu bom-dia.

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Tosco mesmo. Pra exorcizar.

13 de setembro de 2009

Trecho II.

Discutiram poucas vezes durante o tempo em que estiveram juntos.
Na única vez em que gritaram um com outro, nunca mais se falaram.

O silêncio, para eles, foi amálgama, mas também algoz.

3 de agosto de 2009

Recorte.

Há dez anos repetia o mesmo gesto. Primeiro, diariamente. Depois, duas vezes por dia: uma na ida para o trabalho, outra na volta para casa. Só trocavam cumprimentos e acenos educados. No começo, o bom dia ainda vinha acompanhado do pedido: uma carteira de hollywood, por favor. Passados alguns meses do ritual diário, quando avistava o outro a chegar, andava devagar - manco que era - até a prateleira. O maço já aguardava o dono no balcão. Às vezes, saía fiado. Noutras, o pago era adiantado.

- Bom dia, companheiro.
- Boa noite, companheiro.

E acenos de cabeça. Nada e tudo, entre cigarros e educação.

3 de julho de 2009

De um final feliz e um arquivo que não pode ficar morto

Quando José Carlos da Conceição, 26 anos, deixou a cidade de Lauro de Freitas, na Bahia, há um ano, para vir ao Recife, ele não imaginava que passaria por dificuldades que o fariam tentar contra a própria vida. Em uma manhã de junho, José Carlos subiu em uma torre de telefonia e ameaçou pular. A tentativa de suicídio mudou a rotina na Avenida Guararapes, em Jaboatão dos Guararapes. Moradores e passantes disseram que José Carlos subiu às 8h e então anunciou suas intenções. Polícia e bombeiros foram acionados. Foi preciso mais de duas horas de conversa, com a ajuda de um pastor evangélico, para convencer José Carlos a descer.

Como acontece em qualquer "evento" de meio de rua, curiosos interromperam afazeres para acompanhar o drama, se acotovelando para chegar o mais perto possível do "olho do furacão". A situação-limite se explica pelos descaminhos percorridos por José Carlos.

Em um ano, o rapaz baiano que veio a Pernambuco procurar por trabalho, foi assaltado, ficou sem dinheiro, sem documentos, passou fome, levou facada, fez cirurgia, dormiu na rua, virou pedinte. Os percalços o levaram ao desespero. Sem ter como contactar a família, já sem esperança de voltar à sua cidade, José Carlos decidiu pelo suicídio.

À polícia e ao pastor José Alencar Lopes, José Carlos relatou sua história. "Aconteceu com ele, o que acontece com muitos jovens: não consegue trabalho, nem comida, e acaba se envolvendo com bebida e confusões. Não aparece quem lhe dê a mão, apenas que lhe mostre o mal. Ele estava sem esperança, faminto há vários dias", disse o pastor. Segundo o religioso, o rapaz contou que há alguns dias se envolveu em briga em um bar, onde levou a facada.

José Carlos passou por cirurgia, em um hospital público do Recife.Ainda carregava na barriga a cicatriz recente. Depois de receber alta, ficou vagando pela cidade. Acabou chegando ao Terminal Integrado de
Passageiros (TIP), a rodoviária, lugar de partidas e chegadas. Aos viajantes, pedia, em vão, ajuda para voltar à sua cidade. Depois de uma semana, foi expulso. "Ninguém quer por perto uma pessoa pobre e fedendo, não é?", disse o pastor.

Enquanto José Carlos saía do local para onde foi dar cabo de sua vida, já depois de descer da torre - somente após a promessa de que teria ajuda para voltar para casa - curiosos gritavam contra ele. "É um marginal. Tem que ser preso", "Ele precisa de uma surra", "O que ele quer é roubar", dizia quem assistia ao rapaz sair. Cercado por pessoas, ele precisou ser escoltado por policiais para chegar à viatura.

Transtornado, com o olhar fixo, ele repetia o tempo inteiro para PMs e bombeiros: "Não quero ir para hospital. Quero ir para casa. Vocês vão me ajudar? Preciso ir para casa". Ele estava descalço e carregava apenas um saco plástico com panos velhos. Tinha a aparência de quem havia se perdido há muito, em todos os sentidos. Unhas, cabelos e barba enormes. José Carlos foi algemado, colocado em viatura e levado para a 6ª Seccional da Polícia Civil.

Depois de verificar que José Carlos não tinha passagem pela polícia, os PMs o liberaram. Sem ter onde ficar, seria levado ao hospital psiquiátrico Ulysses Pernambucano, a popular Tamarineira, para onde já havia ido por três vezes. "Para lá eu não quero ir, não. Para o Ulysses não", repetia o rapaz. E pela segunda vez, a ajuda do pastor foi essencial para José Carlos.

"Checamos todas as informações que ele nos deu sobre sua família e estava tudo certo. Resolvi ajudá-lo", conta José Alencar. Foi registrado um Boletim de Ocorrência para justificar a ausência de documentos do rapaz. E depois de oferecer abrigo, banho e roupas a José Carlos, o pastor o levou para a rodoviária onde comprou para ele a passagem para a Bahia. "Depois da barba feita, cabelo cortado, roupas trocadas e banho tomado, ele ficou até bonito, o rapaz". José Carlos voltou para casa no ônibus das 18h45. "Acredito que agora ele terá uma nova chance de ter uma vida digna", concluiu o pastor José Alencar.

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Matéria não-publicada. - Jun '09

25 de junho de 2009

empréstimo.

É sempre no passado aquele orgasmo,
é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.

É sempre no meu peito aquela garra.
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.

É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.

É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.

Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.

O Enterrado Vivo | Drummond, velho amigo de muitas guerras.

20 de junho de 2009

personagens III

Havia mais de 30 minutos que tinham começado aquela conversa.

Odiava aquelas ironias. Mais do que ninguém, ele sabia que estava certa. Mas, aquele olhar inquisidor, cheio de si, que ela vestia como uma armadura sempre que estava com razão, era insuportável.

"Estou cansado. Não quero discutir mais nada. Vou para a cama".

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Odiava aquele egoísmo. Mais do que ninguém, ela sabia o quanto suas ironias o irritavam. Mas, a voz displicente com que ele lhe negava a razão, aquele orgulho todo, eram insuportáveis.

"Cansei de tudo. Não aguento mais. Vou embora".